sábado, 30 de dezembro de 2017

Carta 3012

[...] O que mais me doí é que as palavras não querem mais transpor a minha alma. Eu tenho tanto dentro de mim. Tanto que eu acho que poderia preencher muito facilmente esta realidade. Há tantas vozes soando de dentro de mim e a cada dia que se passa o número de discursos no meu coração só extrapola. Só Deus sabe o quanto eu tenho para falar. Transpor. São sentimentos que não se aquietam e causam alvoroço. São saudades inéditas que não se medem e vontades constrangedoras.
Ver alguém partir nunca foi fácil para ninguém, imagine para quem é muito próximo. Estando do outro lado mundo o meu coração recentemente se abalou muito com a partida de um cantor coreano, eu conhecia o seu grupo, mas só o mínimo suficiente para entender quem eles eram e quais os seus nomes, em seus rostos sempre um sorriso marcante e nesse cantor especifico um tão gracioso e enorme que contagiava a todos.
De imediato eu não fazia ideia porque aquilo me tocou. Tive perdas próximas, mas nenhuma moveu meu coração como esta, logo de alguém tão distante, que eu nunca vi se não pelas telas. Eu lembro, naquela noite eu tive vontade chorar, mas eu me seguirei, não fazia sentido algum.
Depois de dias com esse sentimento lampejando no meu coração, parei um pouco antes de dormir e pensando comigo mesmo, acho que pude entender um pouco de tudo isso. Sempre vi a música como uma forma majestosa de transpor e absorver sentimentos latentes. Uma força tão gigantesca e misteriosa que poderia ser considerada como uma das formas mais lindas e divinas de despertar na alma sentimentos. A música é algo inquietante, mas há algumas em especiais que conseguem tocar na parte mais intima da gente, assim como há pessoas que só com um simples sorriso e modo de ser conseguem despertar na gente uma alegria desmedida. Pessoas que mesmo distantes e desconhecidas, conseguem abraçar a alma do outro só com um simples olhar.
Naquela hora, quando tudo que eu tinha era o cessar das luzes e o silencio, tudo fez sentido para mim. A minha dor não brotou só porque ele foi outra vida que se despediu de forma trágica, mas porque a sua essência e voz não poderiam mais ecoar nessa existência. O seu sorriso só poderia ser lembrado por memorias físicas e psíquicas.
Não, este não é mais uma carta de um fa chorão. É a voz de um coração que se importou com a partida de um estranho magnifico. É a voz de alguém que não entende bem como, mas que sentiu mesmo de diferentes realidades e caminhos o amor e inspiração de alguém muito sensível que infelizmente não pode ser ajudado na hora mais escura de sua vida.  Essa escuridão tomou a sua visão e infelizmente o fez esquecer o quão querido ele é e o quanto a vida queria ver mais dessa sua intensa paixão.
O seu sorriso pode ter sido a máscara perfeita para esconder a dor e a inquietação dentro da alma. Mas ainda assim, mesmo quando tudo que você tinha dentro do seu coração era caos e desconhecimento, o seu sorriso, mesmo sem motivo, mesmo sendo uma máscara perfeita, alcançou muitos, e salvou muitos corações que esqueceram o que era sorrir. É estranhamente contraditório pensar nisso tudo, mas a verdade é que, até na sua dor, mesmo sem você saber, o seu sorriso iluminou a vida de alguém.

Perder alguém doí, perder qualquer ser humano doí demais, afinal todos somos irmãos, mas a minha dor não foi só por isso, foi porque quando eu soube da tua partida, eu queria poder ter te conhecido e ter dito-te o quão maravilhoso você era e o quanto há muito nesse mundo para se abraçar. A minha saudade desmedida tinha a forma perfeita do teu sorriso e vibrava no mesmo tom da tua paixão. Eu queria poder ter te chamado de irmão, mesmo que você me estanhasse e quisesse fugir de mim achando que eu era um louco, eu só queria poder ter dito-te antes daquela noite que você vale muito e que você nunca estaria sozinho. 

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